Vs. 19-21 – Como já foi dito,
Tiago aborda certos comportamentos que eram peculiares à mentalidade judaica e
ao modo de vida que tendiam a transportar para o Cristianismo. Estas eram “faixas” que precisavam ser tiradas
desses novos convertidos. Uma coisa, em conexão com a Palavra de Deus, era o
amor deles de se sentarem na sinagoga aos sábados e discutir e disputar as
coisas que eram lidas nas Escrituras (At 17:2-3, 17, 18:4, 28:19). Eles se imaginavam
mestres (doutores) e críticos da verdade (Rm 2:19-20; 1 Tm 1:7) e amavam
debater suas opiniões. Embora isso possa ter sido tolerado nas sinagogas no
judaísmo, é algo que não tem lugar no Cristianismo (2 Tm 2:14). Deus quer que
os Cristãos se reúnam para ouvir a Palavra de Deus lida e exposta (1 Tm 4:13),
mas tais ocasiões não devem se deteriorar ao simples debate das opiniões de
alguém (2 Tm 2:14).
Tiago começa afirmando a
postura correta e apropriada que devemos ter na presença da Palavra de Deus.
Ele diz: “Sabeis isto, meus amados
irmãos; mas todo o homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para
se irar Porque a ira do homem não opera a justiça de Deus”. Essas breves, mas objetivas exortações mostram que deve haver
reverência para com a Palavra de Deus quando é aberta e lida, e deve resultar
em controle próprio por parte do
ouvinte (Sl 119:161).
Em primeiro lugar, precisamos
estar “prontos para ouvir”. Isso se
refere a uma prontidão mental para ouvir e receber a verdade da Palavra de
Deus. Devemos estar ansiosos para aproveitar todas as oportunidades para
aprendê-la. A pessoa que tem um espírito ensinável – que toma o assento de um
aluno humilde e ouvir atentamente quando a Palavra de Deus é ministrada –
certamente irá aproveitar a ocasião (Dt 33:3; Lc 8:35, 10:39).
Em segundo lugar, devemos ser
“tardios para falar”. Essa é uma
referência em relação a fazer observações sobre as Escrituras. Sabemos em parte
e, na melhor das hipóteses, só podemos profetizar em parte (1 Co 13:9). Assumir
ser uma autoridade na verdade de Deus é pensar de nós mesmos mais do que
deveríamos (Rm 12:3). Isso manifesta uma ignorância da grandeza da Palavra de
Deus (Sl 138:2). Tiago, portanto, insiste em uma restrição sendo feita no
desejo de projetar nossos pensamentos sobre as Escrituras. No capítulo 3:1, ele
adverte contra querer ter o papel de mestre e comunicador do conhecimento
divino, porque todos esses são mantidos em um padrão maior de responsabilidade.
A pessoa que está constantemente transmitindo suas opiniões e pontos de vista
não está em posição de receber a verdade e crescer em seu entendimento da
revelação divina. Portanto, os comentários sobre as Escrituras devem ser feitos
com cautela e uma percepção consciente de que é a Palavra santa e infalível de
Deus que estamos comentando.
Em terceiro lugar, devemos
ser “tardios para se irar”. É triste
dizer que discussões carnais sobre a verdade da Palavra de Deus às vezes podem
resultar em ardor e ira. Com demasiada frequência era assim dos judeus em suas
sinagogas. Tiago, portanto, insiste na restrição de tais paixões ardentes.
Tentar impor nosso ponto de vista levantando nossa voz e argumentando nunca favorecerá
o avanço da declaração da verdade, porque, como diz Tiago, “a ira do homem não opera a justiça de Deus”. Deus não se
identificará com tais ações carnais. A verdade de Deus deve ser comunicada e
recebida em um ambiente de quietude e paz (Dt 33:3; Ec 9:17; Lc 8:35, 10:39).
V. 21 – Tiago prossegue,
mostrando que, ao receber a Palavra de Deus, não deveria haver apenas controle
próprio, mas também julgamento próprio.
Se esperamos nos beneficiar com a leitura da Palavra de Deus, é imperativo que
deixemos de lado toda a “imundícia”
e o “acúmulo de maldade” (ARA). Sem
esse necessário julgamento do “eu”, “a
Palavra enxertada [implantada –
ARA]” nunca se apropriará
adequadamente de nossa almas fazendo-nos crescer. Se o solo de um jardim
estiver cheio de ervas daninhas, as raízes de uma boa planta não se sustentarão
e crescerão adequadamente. Um jardineiro sábio, portanto, prepara o solo arrancando
ervas daninhas indesejadas que sufocam o crescimento de boas plantas. Da mesma
forma, devemos preparar nossos corações para “receber” a Palavra, livrando-nos de tudo em nossa vida que seja
inconsistente com a natureza santa de Deus (1 Pe 2:1-2). Isso é feito por meio
do julgamento próprio (2 Co 7:1).
O espírito em que devemos
receber a Palavra é o da “mansidão”.
Isto indica uma reverência pela Palavra e por aqu’Ele que a deu para nós. Tiago
chama isso de “palavra enxertada
[implantada]” porque, se recebida corretamente, ela se enraizará em nós e
se tornará parte integrante de nossas vidas. O apóstolo João fala disso,
dizendo: “A Palavra de Deus permanece em
vós” (1 Jo 2:14 – TB).
Tiago acrescenta: “a qual pode salvar as vossas almas”.
Para aqueles que não foram salvos (os meros professos entre eles), a recepção
da Palavra de Deus em fé resultaria em sua salvação eterna. Mas para aqueles
que foram salvos, haveria um grande benefício prático em ter a Palavra implantada
como parte integrante de sua vida Cristã. Se houver obediência aos princípios
da Palavra de Deus, o crente pode ser salvo dos muitos perigos e armadilhas
espirituais no caminho da fé (Sl 17:4).